Recentemente fiz um curso livre de Filosofia da Tecnologia e Design da Universidade de Twente.
Baiscamente é uma investigação da interação humana com a tecnologia, as formas ela molda o comportamento humano e uma reflexão sobre a moral da tecnologia. Não é uma abordagem nova, mas ainda é inexplorada no design e implementação de tecnologia, e por aqui no Brasil há muito pouco material e estudo sobre o tema.

Trabalho com tecnologia há muito tempo e sempre questionei o papel da tecnologia na transformação social. Algo que sempre estranhei em todos os projetos de implantação de novas ferramentas sejam para automatização de processos, atendimento ao cliente ou comunicações é que falta um item essencial que é o componente cultural.
No desenho das soluções, muitas vezes não é considerado qual é a mudança na cultura necessária para que aquela tecnologia produza o resultado necessário ou a consideração de qual mudança cultural aquela tecnologia vai trazer nas relações humanas.

A tecnologia nunca é neutra, ela sempre afeta o comportamento humano de quam a utiliza. A intenção pode ser clara e estar presente no design ou implícita e sempre reflete o pensamento, a cultura e visão de mundo de quem a criou.

Em maio a Unesco divulgou um relatóro afirmando que as assistentes de voz são sexistas ( https://www1.folha.uol.com.br/tec/2019/05/assistentes-de-voz-sao-sexistas-diz-relatorio-da-onu.shtml) . O estudo mostra que os assistentes como Siri, da Apple, Alexa, da Amazon, e Cortana da Microsoft foram concebidos para parecer femininos, atráves dos nomes, das vozes e da personalidade. Eles são programados para serem submissos e servis, o que inclui responder de forma educada a insultos. Por isso reforçam as tendências de tratamento de gênero, normalizam o assédio e nos mostram como a cultura patriarcal dominante está presente na forma como a tecnologia é programada. A inteligência artificial aprende e repete o que vê no mundo, é apenas um replicador da cultura existente.

É muito comum dentro de empresas ou no atendimento ao cliente, as pessoas falarem que não podem tomar alguma ação, pois o “sistema” não permite. Muitas vezes essa ação é o que traria mais benefício e faria mais sentido para todos, porém o “sistema” neste caso está moldando o comportamento das pessoas. Muitas vezes isso é intencional para alterar o fluxo de um determinado processo, mas em muitos casos, de forma implícita afeta as relações humanas, que passam a ser ditadas pelas regras do “sistema” que não parece estar a serviço de nenhuma das partes envolvidas.

Outro exemplo que vejo no dia a dia de como cultura e tecnologia precisam andar juntos, é que muitas empresas investem em novas ferramentas de colaboração para realizar reuniões on-line, porém as pessoas continuam fazendo as suas apresentações e reuniões da mesma forma que faziam antes, quando era presencial. Simplesmente não funciona, e os mais resistentes acham que o problema é o modelo on-line e condenam o uso tecnologia e o trabalho remoto, quando na verdade todos precisam a aprender uma nova forma de engajar as pessoas e ter reuniões mais efetivas usando novos recursos.

Um dos grandes debates é a moralização da tecnologia.
Por que não embarcar deliberadamente na tecnologia um fator moralizante que molde de maneira intencional o comportamento do usuário, por exemplo, no caso das assistentes de voz para a ampliar a igualdade de genero uma ferramenta de comunicação que garanta que todos sejam ouvidos, ou para forçar as pessoas a gastarem menos água no banho ou dirigirem de maneira mais econômica e respeitando os limites?
É um debate necessário.

O futuro é High Tech e High Touch. A tecnologia tem cada vez mais impacto em nossas vidas e quanto mais ela esta presente, ao mesmo tempo queremos nossa crianças cada vez mais longe dela.
Quanto mais as máquinas automatizam o nosso trabalho maior é a necessidade de autonomia, cuidado e empatia em todas as relações humanas.

O futuro não é sobre tecnologia, é sobre mudar a cultura que nos torna humanos, e como a tecnologia vai nos apoiar nesta jornada.

Explorador do novo mundo das organizações. Especialista em soluções de comunicação e colaboração. Facilitador de práticas de autogestão.

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